Gideão estava escondido, com medo, e se achava o menor da família, mas Deus o chamou de "poderoso guerreiro". A história dele mostra que Deus não procura os mais capazes: Ele capacita os que chama.
Você já se sentiu tão pequeno diante de um problema que duvidou que Deus pudesse usar você para resolvê-lo?
Se a resposta é sim, a história de Gideão, em Juízes 6 e 7, é para você. Ela nos ensina que Deus não procura os mais capazes; Ele capacita os que chama. Gideão não venceu pela própria força, mas pela presença de Deus. E Deus quer agir na sua vida hoje, além das suas limitações.
Antes do chamado, uma crise real
"De novo os israelitas fizeram o que o SENHOR reprova, e durante sete anos ele os entregou nas mãos dos midianitas." (Juízes 6:1)
Israel estava em colapso espiritual, econômico e social. Os inimigos invadiam como gafanhotos e devastavam as lavouras. O povo vivia escondido em cavernas e esconderijos nas montanhas. O texto diz que Israel empobreceu tanto que finalmente clamou ao Senhor (Juízes 6:6).
O pecado sempre cobra o seu preço. Israel tinha abandonado o Senhor, e o Senhor permitiu consequências reais. Mas, assim como no Éden, quando Deus já tinha um plano de salvação logo depois da queda, aqui também o juízo e a graça andavam lado a lado. Deus é tão fiel na disciplina quanto na bênção. Ele nunca abandona o seu povo, mesmo quando o povo o abandona.
E a crise prepara o coração. Quando tudo vai bem, muitas vezes nos acomodamos e nos afastamos de Deus. A crise nos leva de volta ao lugar da dependência, e é ali que experimentamos o amor dele. Você não precisa ter tudo resolvido para clamar. Só precisa clamar.
Deus chama o improvável
Gideão estava malhando trigo dentro de um tanque de prensar uvas, um lugar fechado, para esconder o alimento dos midianitas (Juízes 6:11). Um homem com medo, trabalhando escondido. E foi exatamente ali que o Anjo do Senhor apareceu:
"O SENHOR está com você, poderoso guerreiro." (Juízes 6:12)
Deus chamou Gideão de guerreiro antes de ele fazer qualquer coisa corajosa. Deus vê o que nós não vemos em nós mesmos. O chamado não depende do nosso histórico, mas do propósito dele. Deus enxerga a pessoa que você ainda vai se tornar, não só quem você é agora.
A resposta de Gideão foi feita de argumentos, não de fé. Primeiro ele questionou a providência de Deus: se o Senhor está conosco, por que tudo isso aconteceu? (v. 13). Depois questionou a própria capacidade: o meu clã é o menor, e eu sou o menor da minha família (v. 15). Por fim, pediu sinais (v. 17).
Gideão é um retrato honesto de muitos de nós. E a boa notícia é que Deus não desistiu dele em nenhum momento, assim como não desistiu de você.
O chamado de Moisés foi muito parecido. Deus apareceu onde ninguém esperava, numa sarça no deserto, e o chamou para algo que parecia impossível. Moisés também respondeu com objeções: "Quem sou eu para ir ao faraó?" (Êxodo 3:11). E a resposta de Deus foi a mesma que deu a Gideão: "Eu estarei com você" (Êxodo 3:12; Juízes 6:16).
A presença de Deus não apaga a nossa fraqueza; ela a transforma em instrumento. O padrão bíblico é claro: Deus escolhe o fraco para que a glória seja só dele.
Depois veio o sinal da lã: primeiro molhada com o chão seco, depois seca com o chão molhado (Juízes 6:36-40). Isso não é um modelo para vivermos testando a Deus. É o retrato de um Deus paciente, que suporta a nossa fé fraca. Ele não descartou Gideão por causa das dúvidas; firmou-o nelas.
Coragem não é ausência de medo
Antes da batalha, Deus mandou Gideão derrubar o altar de Baal da família. E a Bíblia é honesta: "com medo da sua família e dos homens da cidade, fez tudo de noite, e não durante o dia" (Juízes 6:27).
Gideão agiu com medo. Mas agiu.
A fé bíblica não elimina o medo humano; ela decide obedecer apesar dele. Gideão não era um herói de novela. Era um homem real, cheio de contradições, mas disposto a obedecer. Deus não pede que você seja destemido antes de agir. Pede que você creia e aja. E, quando você age, Ele revela a sua força.
Depois Deus fez algo que nenhum general faria: reduziu o exército. De 32 mil, ficaram 10 mil; depois, apenas 300. O motivo Ele mesmo deu: "A fim de que Israel não se orgulhe contra mim, dizendo que a sua própria força o libertou" (Juízes 7:2).
A vitória que pertence só a Deus
Mesmo assim, o medo de Gideão ainda falava alto. Deus sabia disso e o mandou descer ao acampamento inimigo com o seu servo Pura (Juízes 7:10-11). Lá ele ouviu um soldado contar um sonho e outro interpretá-lo: "Não pode ser outra coisa senão a espada de Gideão" (Juízes 7:14).
Gideão ouviu da boca do inimigo aquilo que Deus já tinha dito no primeiro encontro. Ali, finalmente, ele entendeu. Adorou a Deus, voltou ao acampamento e gritou: "Levantem-se! O SENHOR entregou o acampamento midianita nas mãos de vocês" (Juízes 7:15).
A estratégia era absurda por qualquer critério militar: 300 homens, de noite, com jarros de barro, tochas e trombetas, contra um exército de cerca de 135 mil. Eles tocaram as trombetas, quebraram os jarros, levantaram as tochas e gritaram: "À espada, pelo SENHOR e por Gideão!" (Juízes 7:20).
E o texto diz que o Senhor fez os inimigos se voltarem uns contra os outros com as próprias espadas (Juízes 7:22). Os 300 não derrotaram o inimigo; o inimigo se destruiu.
Esse é o padrão de Deus. Como Davi disse a Golias, a batalha é do Senhor (1 Samuel 17:47). Ele usa o que parece fraco e loucura para envergonhar o que parece forte e sábio (1 Coríntios 1:27). A nossa parte é a presença e a obediência. A vitória é obra dele.
Você é o Gideão que Deus está chamando
Há um detalhe lindo no fim da história: um dos líderes midianitas, Zeebe, foi derrotado num tanque de prensar uvas (Juízes 7:25). A história de Gideão começa com ele escondido num tanque de prensar uvas e termina com o inimigo vencido num tanque de prensar uvas.
O lugar onde você se esconde hoje é o lugar que Deus quer transformar no símbolo da sua vitória.
Israel estava em crise, mas Deus estava esperando o clamor. Gideão era improvável, mas Deus o chamou de valente antes de qualquer vitória. O medo estava presente, mas a obediência aconteceu mesmo assim. O exército foi reduzido para que a glória fosse só de Deus. E a vitória, absurda pelos padrões humanos, era absolutamente certa pelos padrões de Deus.
Talvez você esteja hoje como Gideão, escondido no lagar. Saiba que esse pode ser exatamente o lugar onde o sobrenatural de Deus vai começar.